sábado, 3 de setembro de 2011

Entre o que eu quero e o que posso viver.

       Quando me degustei daquela boca insana, mergulhei em proporções que outrora pareciam mais fartas, mas foi ao sentir tua saliva quente viscosa, misturada a cerveja amarga que encontrei em mim memórias frias e severas de final de julho, era hora de rir escancaradamente para não chorar de covardia.
            Nesta hora o nó que estava atando a garganta me sufocando desde sempre se desenrolava ao buscar a sincronia de uma língua ágil e desesperada, sua dona era solitária visto pelo que apresentara a mim, tinha em si uma silhueta obscura de burguesia boemia e medrosa estagnada a uma vida insegura de prazeres secretos e culposos impostos pela sociedade politicamente correta, isso ainda me fortaleceu o desejo casual de consentir ao pecado teu, aliviando lhe da proposta imposta de suas formalidades sexuais reprimidas, era um espetáculo armado onde as apresentações decorridas deixaram um palhaço despido e deprimido a mercê de um público que mendigava pela graça de alguns sorrisos, mesmo que os mesmo coubessem em um rosto pálido e irônico.
            Em meu íntimo pensamento me martelava a idéia de que o outro que partira há poucos dias agora busca levar contigo de bagagem uma crua realidade hipócrita oferecida de bandeja pela “minha” vaga idéia de sociedade formalista e retraída, me vêm à certeza de que em dias passados este fora bem mais cruel e verdadeiro quando chegava manso me fitando sublime e de forma peculiar, era onipresente mesmo não estando ali, naqueles dias de remanso eu gostaria de ler seus pensamentos, sendo eles os mais serenos ou os mais maquiavélicos que se podia deduzir pelas suas expressões faciais ou seu vago olhar, eu assim poderia sentir-me mais confiante no que dizer na cena seguinte, porém enfim continuei com os cigarros habituais e agora a realidade estava desnudo na cama de alguém, acompanhado e ao mesmo tempo sozinho pra dar ênfase a sensação melancólica de saudade, enfim era mesmo covardia misturada a desespero que nos atirava a um abismo de clichês que nem ao menos fazem sentido.
            Quando buscava conforto em mim, estava apegado a uma figura real que lhe fartava determinados anseios, mas acho que mesmo assim ainda buscava outros, eu fui assim por um tempo teu porto imponente seguro e continuei tentando outras soluções para o que fazia falta a tua idéia de bons sonhos em dias de pranto. Depois com o tempo de certa forma fui desaparecendo em finais de tardes fadigadas onde as coisas não mais passavam do casual, um café, um cigarro, cinco minutos de companhia, daí então me perdi em meados de memórias quentes de um inverno frígido de fim mês, agora estou embaraçadamente desconfortável roçando em uma pele que nem era tão quente e que nem ao menos fazia desatar de meu mundo passado, pessoal e peculiar. 
            Minha boca amarga o último gole destemido depois de desprendido da língua fervorosa que percorria as minhas extremidades mais intimas nuas, a noite era quente, mas naquele espaço sem fim habitava mesmo era uma frustração gélida, depois do carnal vêm à sensação de continuar estagnado à mesmice dos desejos, sozinho entregue ao clichê de acender um último cigarro antes que a noite termine, antes que eu vista roupa para partir, “até nunca mais”, pretendo tentar dormir subitamente e crer cegamente que ao acordar seria você dormindo profundamente ao meu lado, confortável a mercê de qualquer atitude real, viável as minhas mãos e não mais só em meus sonhos, entre nós só mediria alguns poucos centímetros de respiração tranqüila de um sono pesado arfado de dias mais cansativos, estaríamos enfim vivendo nosso sonho particular, uma a dispor dos cuidados do outro, estaríamos vivendo.
            Tenho pena das almas solitárias que buscam a contemplação da vida no espírito livre e cheio de luxuria de outros, estes encontraram apenas desapego, desconforto o desamor, a realidade estará despida para seus olhos imaturos fazendo com que os sonhos se assemelhem a realidade e nós mesmos não saberemos mais distingui-los, viveremos sonhando ou sonharemos com o gosto da vida, estes que ainda não sabem amar serão solitários sobreviventes da casualidade mundana, pois também não foram amados, se alguém lhes entregasse um coração oferecendo o desconhecido e intrigante emaranhado de sensações agregadas a tal sentimento, se encontrariam boquiabertos de espanto buscando explicações que talvez fossem irracionais ao que lhes foi imposto, é um misto de insanidade e felicidade, de malicia e inocência.
            Agora mais aliviado depois saciar temporariamente o que estava inquieto em mim desde sempre, pude desviar meus pensamentos a idéia absurda de que pós ali viria à calmaria imediata, mas minha lucidez foi tomada depois dos suspiros arfantes e gemidos gritados, pelo ato eu poderia deduzir se não estivesse ali que alguém estaria morrendo, e de certa forma estava realmente, os dois, cada um da forma mais cabível, se perdendo na casualidade assentimental do momento. O erro exato de toda história foi ter me desprendido de meus pensamentos naquele instante, voltando ao realismo da cena do quarto a meia luz, não havia mais clímax, nem tão pouco excitação, nem muito menos haveria romantismo a seguir por minha parte sendo eu quem sempre fui, que este não esperasse de mim a fuga de seu retiro solitário e nada empolgante, em alguns minutos seguintes eu não estaria mais ai, e ao partir não lhe estenderia a mão para tirar-lhe de sua masmorra, nem tão pouco voltaria a afagar-lhe os anseios carnais de uma alma desesperada, o quarto voltaria a ficar vazio, e suas noites seriam a desejar que outras assim não voltassem a acontecer.
           
- Meu nome?
Com um último lapso de coragem e esperança de uma proximidade vaga me ofereceu um sorriso de canto sujeitando-se pela derradeira vez a meu desdém, me indagando. E eu por vez, nem ao menos vacilei, ou repensei no que dizer.
- Me chame de “alguém”.
Ouviu-me pelas costas.
- Adeus até nunca mais.


            “Em cada segundo eu posso criar um novo futuro, mas não posso apagar o que construí de meu passado.”

Rafael Augusto

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Oração de Despedida.



Era para ser uma simples despedida de fim de noite, lá pelas quatro e pouco, depois de uma transa pouco convincente, de uma troca subjetiva de fluídos corporais, e de um diálogo sobre nossas íntimas pendências, ela decidiu a um não mais um “meio termo” de nosso convívio , e partiu, o que era pra ser um simples “até amanhã”  não soou de tal forma. Sem ao menos pestanejar ou tão pouco vacilar, seu jeito manso naquele instante se voltou ao típico ser bruto e frio quando me deixou sentado na borda da cama no quarto a meia luz, sentindo o lençol ainda quente apertado entre uma das minhas mãos enquanto a outra acariciava desesperadamente meu cabelo desregular, adiante a porta se fechava de maneira grosseira sem deixar espaço pra qualquer diálogo desesperado de reconciliação ao qual coube em outros momentos de irracionais ocasiões.
Seus passos que antes eram apressados, rígidos e previsíveis, donos de um próprio mundo, agora ecoaram de forma passiva a cena anterior, se arrastando de forma indecisa e melancólica, ao som de uma música qualquer da nossa seleção favorita ao fundo, dando espaço para uma cena dramática de qualquer filme favorito nosso, pareceu inevitável não chorar naquele momento, a penumbra silhueta que adentrava o vazio final, dobrando a última esquina corredor alcançando enfim uma escadaria sem fim estava tão cabisbaixa e solitária quanto eu pude imaginar. Ela partiu antes da hora, levou com ela meu calor, alguns retratos, e o último cigarro que acendera depois do orgasmo fingido.
  Ainda nem eram cinco quando comecei a planejar o próximo passo do começo de semana boêmio que decorreria com certeza a partir dali, eu não poderia fugir do clássico clichê previsível de finais de relacionamentos, só não me abusei de um balcão qualquer porque realmente não desejava um público tão mais com aparência de falecido do que eu. Em um lapso de vácuo lógico me encontrei tragando e degustando compulsivamente o sabor de uma vodka ardida e amarga da última noite de bebedeira, nunca fui fã de vodka, mas naquele momento eu poderia refletir dando exatidão imediata que desde sempre também nunca fui um grande apreciador de despedidas prematuras.
No canto pouco iluminado a mesinha de forro xadrez avermelhado se impunha para mim de maneira simpática de forma a me mostrar que sobre ela ainda parava sutil algumas outras quantas fotografias recentes, um envelope branco mudo e alguns papéis de carta com grafia ligeira, complexa e decidida desde algum tempo.
Agora depois de ler a carta e ter sujeitado a mais uma transa que se dizia forjada, fico perguntando complexado porque se entregara mais umas vez a mim, sendo que seria ali um ponto final do que vínhamos chamando de “sobrevivência”?
Usei enfim algo que li na carta explicativa para me confortar até certo ponto, coisas tristes me vêm de forma fácil na cabeça quando nem ao menos faço questão, posso descrever não com tanta exatidão o que ela dizia, mas lembrarei o que coube a mim entender o que me escrevera.

“Já era hora de deixarmos de lado nossa convivência adaptada para que ambos não se sintam sozinhos. Quando te vi pela primeira vez na mesinha do café da esquina, enquanto você lia seus intrigantes suspenses parecendo se perder entre eles me apaixonei de primeiro momento, mas foi quando você me sorriu e ofereceu companhia pro café é que tive certeza de que gostaria de sua estadia comigo por todos os outros dias seguintes, seus olhos me fitaram de maneira singela e provocante, aquilo me acendia a alma, e definitivamente me calava a solidão, eu me controlei até o ponto em que senti você respirando quente a milímetros de meus lábios e lá se foi o nosso primeiro beijo, tinha gosto de café e cigarros, tinha um gosto muito bom.
Com o tempo nossas aparências complexadas e nada viris foram se erguendo de forma muito perceptível, nossas noites não se definiam mais em prazer ou amor, existiam demasiados gemidos quentes e outros tantos sussurros delicados, juras e promessas de um sonho eterno que nos dois compartilhamos entrelaçados um ao outro em nosso pequeno mundo que chamamos de cama.
Não sei em que ponto paramos de sonhar, ou de fazer questão de enfeitar nosso dia-a-dia, você não mais me dedicava seus contos com tanta freqüência, e eu tão pouco fazia questão de procurar novas e futuras canções que seriam nossas, o que era íntimo foi ficando comum demasiado, foi quando percebi que sentia falta de você me adorando, acariciando e cheirando de maneira deslumbrada cada centímetro do meu corpo, me arrancando risos prazerosos enquanto alcançava determinadas curvas em mim. Os detalhes mais brilhantes que eu enxerguei em nós foram ficando de lado, então me decidi, decidi por nós dois não mais ficar por aqui, talvez assim sintamos falta um do outro, lembraremos de desejo incomum que compartilhamos outros tantos dias, mas que agora não passa do casual.
Não deixei de te querer, nem deixei de sonhar, o que estou deixando é uma parte de mim ai com você, espero que ainda cuide dela, talvez um dia eu lhe bata a porta lhe pedindo de volta algo que ainda pode me pertencer.”

Rabiscou ao final em rodapé algum meado de palavras que remetiam a uma das primeiras canções favoritas, assinou delicado, decidiu e partiu.

Eu fiquei espreitando de momento a momento as sombras por debaixo da porta, com duas metades de coração em mãos, uma minha e outra tua, esperando ouvir a fechadura girando a porta se abrindo e antes que você se aproximasse de um abraço eu já estaria sentido seu perfume doce outra vez me fazendo estremecer por nossos detalhes que não estavam tão perdidos assim quanto você queixara. Mas ao fim bêbado, largado e boêmio eu dormi, rezando e suplicando a Deus para não acordar sem que você estivesse ali. 

domingo, 7 de agosto de 2011

Onde os Anjos ainda não tem vez.

Achei que seria prazeroso sair mais uma vez de casa e esperar que o calor e a luz ofuscante do sol me revigorasse, que o dia ia ser o mais brilhante de todos os tempos, então me expus. Daí então antes de sair me olhei umas quantas outras vezes perdidas no espelho mudo, esperando uma resposta qualquer de onde eu deveria ir, eu olhei firmemente em meus olhos, meu queixo estava rígido, e a garganta um tanto seca. Encarei mais alguns segundos uma silhueta pálida que me remetia coisas não tão agradáveis quanto eu queria, ela não me sorria e nem tão pouco fazia algum esforço para que eu sorrisse também.
Uma vontade escandalosa de me aquietar embaixo do chuveiro em um desabafo frio e confortante ao gélido piso mudo me veio do mais intimo possível, eu queria mesmo ficar ali, largado, talvez um cigarro ou outro para me fazer lembrar tantas outras coisas, aos olhos do espelho mudo precipitei que figura pálida ali me consentia a fazer o mesmo, e de tempo a tempo o dia que eu enxerguei cabível de raios quentes e de essência alegre foi ficando obscuro, se turvando e desmanchando se na imagem de uma noite pesada, bandida, e vazia.
Em minha mente vagarosamente foram adentrando pensamentos secos e eloqüentes, aqueles olhos pequenos de cílios negros que me fizeram perder o fôlego tantas outras vezes voltaram a me encontrar, daí então fui espatifando o que vestia e deixando o sossego que veio tardio ir embora devagarzinho, mas eu tinha pressa, agora pensava no cheiro de sua camisa colada contornando levemente a silhueta mais desejada dos últimos tempos, isso sim me vazia tremer.
O vapor do chuveiro começava a embaçar todo o clima, e turvar ainda mais a visão do que era real ou surreal ali, não fazia frio nem calor neste momento, apenas existia um vazio estremecedor que me encaminhava água a baixo, o toque da pele quente no azulejo frio não era desagradável como outras vezes, era quase a mesma sensação de que senti quando me veio em recepção desagradável a noticia de que nosso encontro de amanha estaria desmarcado pra um dia não mais cabível a mim ou a você.
Perdi-me por algum tempo ali, estagnado sem noção de momento, apenas ali, sem qualquer fator externo me incomodando, a não ser a música melancólica que soava agradável ao clima, o que me incomodava realmente e sem previsão de ir embora era o que vinha de dentro, isso sim, rasgava as entranhas de minha alma sem pestanejar ou vacilar por qualquer momento, quando essa dor vinha se misturava com a nostalgia de outros tempos já superados e fazia questão de me mostrar o quanto ela era exata e suprema, acho que nunca me acostumarei com ela.
Continuei ali pelo tempo indeciso que precisei e até onde suportei o sufoco entre os cigarros e o vapor quente apertando meus peitos, eu queria um abraço, um conforto, sentir frio ou calor junto a alguém, queria me arrancar o ar enquanto abusava do arfar de outro alguém, então lhe telefonei.
Agora diante do espelho novamente couberam palavras mais sensíveis do que eu lhe vinha dizendo de forma a soar sutil, mas de certa forma com um interesse vazio agregado, eu sei que dou outro lado alguém sorria enquanto eu lhe convidada a pertencer a um mundo que ainda não era só meu, eu quase podia lhe ouvir sorrindo abafado e lhe enxergar arfando pesado de vontade recíproca, eu lhe ofereci conforto que outros tempos me pedira chorando, lhe ofereci braços, mãos, lhe ofereci um corpo fadigado e vazio, e você entendeu como sendo o “tudo” que você cobiçara desde muito tempo, e mais que de imediato consentiu que viria até mim.
O telefone se calou, eu me concentrei em vestir qualquer roupa que lhe fizesse acreditar que eu era o mesmo de sempre, que eu era frio, amável e inconseqüente, mas isso não bastava, acho que meu brilho estava ofuscado de forma muito perceptível a qualquer um que me conhecesse pelas metades. E mais cedo do que de costume você bateu a minha porta, mas como sempre foi tarde pra qualquer coisa, meus sorrisos forjados caíram, tão rápidos quanto meu corpo em seus braços, eu ouvi metade do que você disse e outra metade não me acompanhou, eu estava pensando em historias de amor, em meus filmes favoritos, em músicas que falavam por mim, eu só estava ali pela metade, a metade não tão boa de mim, estava a ver navios.



- Eu lhe abracei apertado, ainda molhado, lhe pedi desculpas imediatas e insanas, ele consentiu e compreendeu, pra alguém que me desejava desde outros dias sei que foi de ingenuidade que ele me sorriu e pediu que eu lhe chamasse de volta quando eu fosse dono de mim mesmo, e assim partiu pra voltar só quando lhe oferecesse algo que ele cobiçava de verdade.

Desculpa, até o dia em que couber mais alguém aqui.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Assim.


Triste orgulho irônico que me atordoa antes mesmo que eu acorde,
Sonhos insanos que me dispõem como um ofendido covarde corajoso,
E ainda ao fim um humilde furioso.                       
A desilusão que veio eminente faz meu céu atar ao inferno,
Trazendo o desconforto como um doce veneno diário,
Correndo em meu corpo com um ardor espantoso,
Levando a minha face pálida vários sorrisos tristes.
Há quem diga que eu sou insano,
Há quem pense que sou exato,
Sou apenas um furioso e descontente dramaturgo desalmado,
Minha alma a muito não me faz caso,
Em meu corpo o abrigo vazio do desejo,
Lhe bem digo fraco balbuciando,
Se queres ainda assim amar, entenda primeiro sobre desilusão.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

As partes que cabem em mim.




Na verdade nunca fui e nem tão pouco tenho pretensão a ser o estereótipo comum e entediante que a sociedade propõe como “ser normal”. Talvez eu escreva para que minhas palavras me sirvam de refúgio, talvez eu escreva por não funcionar tão bem quanto aparento funcionar, não me sinto em pleno vapor como ser humano.
A divergência que existe de sensações que habitam em meu intimo, até me levam a crer em demasiadas personalidades. Personificação de um maldito ser ambíguo e demasiado complexo mesmo para mim, mas já me acostumei, agora até escrevo enquanto reflito sobre isso.

Às vezes, quase sempre.

Um dia ou outro encontro uma calmaria que desejo pela eternidade, e é ai que escrevo, entorno meu café e abocanho um outro cigarro, acho que nesses dias eu sou um servo do meu eu de personificação mais forte, aquele de personalidade mais fria e bruta, e não ao contrario, daí não fico pelo meio, balanceando-me entre o certo e o errado,  pendendo entre o pudor culposo e a liberdade insana, me sinto livre a desejar algo mais e preso a algo que me faz estagnar, algo que sei o que é e que não consigo alcançar em uma realidade lúcida.
Quando eu estou assim, livre das faces em mim as quais tenho grande apatia, tento entender sobre um sentimento que ainda se faz incomum ao meu eu, o clichê do amor. Tenho a impressão de que seja uma sensação desleixada, do tipo que não se preocupa em causar impactos que deixam rastros visíveis e de boa aparência logo de primeira, às vezes vem assim, sorrateiro, brincalhão, irônico chegando a ser ilógico, suave e apreensivo, e ao final bandido, ou ainda pode vir de forma contrária, ser bandido, soar como suave, nos deixar apreensivo, se dispor como brincalhão, carregado de ilusionismo chegando a ser suave, um brilho irônico, e ao final você se encontra com um vácuo sem fim, atado a alguma coisa perdida, não conseguindo razão enquanto chora e respira pesado, sentido um nó que te cabe como uma gravata bem laçada e apertada ao pé do pescoço. Já lhe digo logo, chorar não lhe recupera um coração.
Foi pensando assim que eu cheguei ao meio termo conclusivo de que o amor entre dois seres é o mesmo que a junção de duas partes semelhantes de uma peça única, apenas em cada parte está disposta um conteúdo diferente, em cada uma existe algo que preenche de forma suficiente os espaços vagos que sobra do outro lado, se faz falta uma das peças, se alguma fica perdida, se quebra ou não se dispõe pela outra, esta então deixa lacunas de medidas inexatas. É assim que eu o imagino, o amor então seria a falta da ausência.
O mal do ser humano então, o erro de tamanho não calculável seria ceder a alguém o gosto de amá-lo, não tendo a disposição real para que pudesse amparar tal fardo, não tendo a intenção verdadeira de amá-lo em retribuição.
Agora me torturo pensando, apesar dos pesares, apesar da forma com que interpreto as coisas, da fragilidade que adorna minha alma, sabendo dos riscos e possíveis racionais conseqüências, porque ainda me pego aqui? Assim, bestificado, abobado e largado, pelo mesmo motivo clichê de sempre, com pretensão esperançosa de viver historias bonitas sem enredos que me levem a um final vazio.


Acho que preciso mesmo é ir além, expandir a mente, deixar algumas coisas, e buscar outras que nunca tive, preciso de uma vida nova, preciso ser melhor que isso tudo.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O avesso de mim.



 Quando escrevo é porque sinto vontade de lhe falar verbalmente.
 Queria sentar-me mais chegado a você nestes dias mais frios e ter por fim como repouso para a cabeça seu colo macio, ou seu ombro seguro, ter suas mãos quentes e pesadas encontrando meus cabelos, minhas orelhas, meu pescoço, sentir enfim a carícia e o afago da delicadeza das pontas dos seus dedos, quase me tocando além físico, e eu enquanto isso fecho os olhos me perdendo do restante de todo um mundo vazio e complicado, premeditando um contexto que viria a seguir quando eu voltar a reabri-los, e balbuciar alguma coisa.
     Minhas palavras empapadas de lamentação enquanto lhe escrevo, quase choram rios de sarcasmo, e tendem a sair modeladas ironicamente aos olhos dos que só querem ler contos de fadas abobados e irreais. Pobre dos inocentes que ainda não conhecem o desamor, o desencanto, o desprazer, eu a muito descobri que os cavalos brancos não trazem o que a gente realmente sonha em ter, e este sim é meu conto, um conto real e irônico, calculista e aflito, meio atordoado vou deixando o “Era uma vez” pro final, pós aí um ponto. Sei bem que existe uma linha tênue que me corta ao meio, me parte em dois lados exatos e incomuns, imagine isso como o dia e a noite, a lua e o sol, o prazer e a dor, o racional e o ilógico, tudo isso se convergindo, entrando em combustão dentro de mim, esse linha tênue traça meu mundo, me envolve até o pescoço, e da um nó na garganta, agora deixo minha mente atirada a pensamentos quaisquer, perdida em um emaranhado de sensações, e enfim os meus sorrisos expandidos de canto a canto andam em paralelo com minhas lágrimas, um em cada parte dividida de mim, um bom, um ruim, um quente, um frio, o doce e outro amargo, e quando se cruzam, se unem, e se complicam, assim então posso às vezes chorar de alegria, ou ainda rir da tristeza.
 Hoje eu escolhi sair, tomar um café e sentir-me mal, sei que vou estar pesado, arfando quente entre um trago e outro, meus ombros vão estar mais caídos, e meu cabelo não vai estar tão arrumado, e nem minhas roupas tão bem cairão como antes, pretendo deixar a barba crescer, em dias assim escolho estar mais largado, em dias assim escolho, na verdade imponho e prefiro me sentir carente, sozinho, melhor ou digamos pior que isso é sofrer de amor, é sentir desamor, talvez amanha eu seja um hipócrita sorridente.
      Mas hoje não, hoje eu escolho tomar um café, fumar um cigarro, e ficar assim, sozinho, e se amanhã sentir vontade, volto a lhe escrever.

" Se o amor quer me deixar, me deixe num domingo, eu não vou reclamar, posso até achar que ficar só é lindo. " (Maria Bethânia/Roque Ferreira)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Antes de tentar dormir.



- Guardou?
- Guardei.
- Onde esta?
- Em algum lugar por aqui, não sei dizer exatamente onde coloquei.
- Mas pelo menos me diga se ainda o guarda de verdade? Isso você deve saber.
- Sim, ainda esta comigo.
- Pretende devolvê-lo?
- Talvez em outra hora.
- Que horas são?
- Deve ser quase meia noite, por quê? Onde esta seu relógio? Quer ir embora?
- Só queria saber, desmontei meu relógio e agora não consigo dormir.
- Porque fez isso?
- O tempo não esta fazendo sentindo, prefiro não tentar entendê-lo, nem acompanhá-lo.
- Então tente dormir, amanha tudo passa.
- Já disse que não consigo.
- Então me diz no que esta pensando?
- Estou tentando compreender o que estou sentindo, mas é difícil, parece um sonho.
- Você esta chorando?
- Não, hoje não.
- E porque não chora?
- Não tenho mais lagrimas.
- Quer as minhas emprestadas?
- Talvez mais tarde, agora tenho mesmo é que sorrir.
- E porque não esta sorrindo?
- Porque você me parece triste hoje.
- Entendo, mas talvez possamos tentar juntos.
- Sim podemos tentar, mas pode ser mais tarde?
- Sim, é claro que pode.
- Que horas são?
- Não sei.
- Olhe no seu relógio.
- Eu acabei de tirá-lo.
- Por quê?
- Não quero saber do tempo também, vou arriscar chegar atrasado.
- E você têm medo disso?

- Talvez, mas é o que me resta.
- Entendo. (Sorrisos) Também tenho medo, mas não hoje.
- Porque não hoje? Porque esta sorrindo agora?
- Lembrei que você esta aqui hoje.
- Isso te deixa feliz?
- Sim, isso me deixa feliz. Mas agora tenho que ir embora.
- Mas você volta?
- Talvez. Só se você estiver aqui.
- Até.
- Até.
- .